José Sergio Gabrielli propõe recompra de títulos públicos para forçar queda de juros e defende maior taxação no Imposto de Renda.

O economista e ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, coordenador-geral do programa de governo da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu publicamente que o Tesouro Nacional passe a intervir no mercado de títulos públicos com o objetivo de reduzir as taxas de juros de longo prazo. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, o economista sugeriu como alternativa a recompra de títulos pelo órgão estatal, citando como referência um movimento similar adotado recentemente pelo governo dos Estados Unidos.
Na visão apresentada por Gabrielli, o avanço contínuo da dívida pública brasileira decorre essencialmente dos encargos gerados pelos juros elevados, e não da expansão dos gastos e despesas governamentais. A tese contrasta diretamente com a postura defendida por analistas do setor privado e defensores da responsabilidade fiscal, que apontam a necessidade urgente de contenção orçamentária e reformas estruturais nas despesas públicas como a única via sustentável para garantir o equilíbrio das contas e a credibilidade econômica do país.
Além da proposta intervencionista sobre os títulos da dívida, Gabrielli revelou que a campanha governista debate um novo aumento na tributação sobre a renda. Segundo ele, está em pauta a elevação da cobrança do Imposto de Renda para as faixas de maior remuneração em um eventual próximo mandato, aprofundando as alterações fiscais que já entraram em vigor neste ano. O posicionamento sinaliza uma estratégia focada no aumento da arrecadação estatal para financiar a máquina pública.
O Tesouro Nacional brasileiro já conta com o instrumento de recompra de títulos para mitigar períodos de volatilidade financeira. Em março, a autoridade adquiriu cerca de R$ 30 bilhões em papéis devido ao cenário de manutenção da taxa Selic em patamares altos, marcando a maior intervenção desse tipo no mercado de juros desde o ano de 2020. Contudo, a defesa de uma atuação voltada a forçar artificialmente as taxas de mercado gera apreensão nos agentes econômicos.
Durante a entrevista, o economista também rejeitou as cobranças por cortes de despesas e criticou um editorial publicado pela Folha de S.Paulo em 16 de agosto, o qual cobrava medidas emergenciais para conter os gastos da União e afastar o risco de crise fiscal, afirmando que o texto colocava o país “à beira do caos”. Apesar de seu papel na coordenação das diretrizes programáticas, Gabrielli não tem sido designado como porta-voz oficial da campanha, sobretudo após suas declarações críticas ao arcabouço fiscal gerarem instabilidade no mercado — fenômeno chamado de “efeito Gabrielli” —, exigindo ações do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, para acalmar as expectativas.
O que esta em jogo: A discussão sobre intervir no mercado da dívida e elevar tributos expõe o confronto entre duas visões econômicas antagônicas: de um lado, a aposta em expedientes heterodoxos e aumento de carga tributária para sustentar o tamanho do Estado; de outro, o princípio liberal de que a confiança, a disciplina nos gastos e a segurança jurídica são as únicas ferramentas capazes de ancorar os juros de forma perene sem pressionar a inflação nem penalizar a sociedade com mais impostos.
Com informacoes de revistaoeste.com.