Ferramentas como ChatGPT e Claude apontaram mais de 70% de probabilidade de auxílio de IA em relatório da PF, enquanto outros modelos atribuem padrão à linguagem técnica.

Um relatório de inteligência da Polícia Federal que serviu de subsídio para decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do Inquérito das Fake News, apresentou características estruturais compatíveis com o uso de inteligência artificial. A constatação surgiu após testes realizados com ferramentas de processamento de linguagem natural, que identificaram padrões mecânicos e repetições estilísticas ao longo de todo o documento policial.
Submetido a quatro diferentes modelos de IA por meio de um comando formulado pelo professor Marcelo Sabbatini, da Universidade Federal de Pernambuco, o texto gerou avaliações contrastantes entre as plataformas. Enquanto o ChatGPT e o Claude apontaram índices de 75% e 73% de probabilidade de que o relatório tenha sido produzido ou revisado com assistência tecnológica, o Gemini e o Grok estimaram probabilidades significativamente menores, calculadas em 5% e 15%, respectivamente.
As ferramentas que apontaram maior probabilidade de uso de IA destacaram a uniformidade sintática, a estrutura cíclica de tópicos — composta por fatos, avaliação, grau de confiança, hipóteses alternativas, riscos e recomendações — e o emprego contínuo de expressões como ‘Avalia-se que’ e ‘Registre-se’. Além disso, foram observadas construções em oposição frequentes, como a fórmula ‘não é X, mas Y’, e a repetição sistemática de justificativas sobre o grau de certeza das análises.
Por outro lado, os sistemas que apontaram baixa probabilidade defenderam que tais repetições e classificações metodológicas, como o uso recorrente de marcadores como ‘[D]’, ‘[R]’ e ‘[A]’, decorrem estritamente da padronização e da linguagem técnica própria de documentos institucionais de inteligência. As ferramentas também ponderaram que a presença abundante de elementos fáticos complexos — incluindo números de procedimentos, referências legislativas, dados nominais e valores — afasta a hipótese de um conteúdo genérico inteiramente gerado por máquina, embora não descarte o emprego da tecnologia para a redação ou organização dos dados fornecidos.
O próprio autor da metodologia de análise, Marcelo Sabbatini, ressaltou publicamente a necessidade de cautela ao examinar os resultados obtidos pelos testes, sublinhando que as estimativas não constituem veredito pericial absoluto nem servem para atestar formalmente a autoria do material. A divergência de 70 pontos porcentuais entre as análises evidencia as nuances entre a interpretação de vícios de automação e a rigidez protocolar da burocracia estatal.
O que esta em jogo: A discussão sobre o emprego de inteligência artificial na elaboração de documentos oficiais toca diretamente a transparência e a solidez das peças técnicas que embasam medidas judiciais no país. Em um cenário onde relatórios policiais são utilizados para fundamentar decisões de grande impacto institucional dentro de inquéritos sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, o rigor metodológico, a clareza sobre os processos de redação e a fidedignidade da atuação dos agentes públicos mostram-se fundamentais para a preservação das garantias do devido processo legal e da segurança jurídica.
Com informacoes de revistaoeste.com.