Ministério da Justiça avalia medidas para obrigar plataformas a abrir dados de impulsionamentos, gerando preocupações sobre segredo comercial e liberdade econômica.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva avança em tratativas para implementar uma regulamentação que obriga plataformas digitais a ampliarem o nível de transparência e o fornecimento de dados sobre anúncios pagos e publicações impulsionadas. O projeto, conduzido internamente pelo Ministério da Justiça, utiliza como justificativa oficial o enfrentamento a golpes digitais e fraudes financeiras na internet. Contudo, a movimentação reacende o alerta sobre o avanço da tutela estatal sobre o setor de tecnologia e a liberdade de operação das empresas privadas no Brasil.
As reuniões recentes entre representantes do Executivo e entidades do segmento de tecnologia evidenciam a ausência de consenso sobre os limites da intervenção. Um dos pontos mais críticos da proposta diz respeito ao nível de exposição das informações financeiras: enquanto integrantes da administração federal defendem a publicização de valores investidos e dos dados cadastrais de quem contratou os impulsionamentos, as empresas apontam que a abertura indiscriminada desses dados compromete o segredo comercial e industrial das companhias, prejudicando o ambiente de negócios.
O pano de fundo normativo dessa investida governamental já vinha sendo desenhado desde maio, quando um decreto do Executivo estabeleceu a exigência de que as plataformas mantenham arquivados os dados de todos os anúncios veiculados pelo período mínimo de um ano. A futura portaria visa operacionalizar o acesso estatal a esses registros durante eventuais fiscalizações, abrangendo propagandas de qualquer segmento, inclusive para monitorar e auditar redes que optam por proibir anúncios políticos em seus sistemas.
Até o momento, a exigência de bibliotecas públicas e detalhadas de anúncios operava essencialmente sob o crivo das normas da Justiça Eleitoral. Em julho, portarias do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já haviam autorizado requisições de dados relativas à propaganda eleitoral paga. Esse endurecimento normativo anterior, no entanto, gerou distorções no mercado: diante das exigências rígidas da Corte Eleitoral em 2024, o Google decidiu deixar de comercializar publicidade política no país, deixando o segmento restrito a empresas como Meta e Kwai.
O movimento do Executivo encontra respaldo em decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), que não apenas fixou tese ampliando a responsabilização das plataformas sobre conteúdos publicitários, mas também referendou expressamente a competência da gestão federal para editar atos normativos sobre o funcionamento do setor digital. Ainda assim, permanece a incerteza jurídica sobre se as diretrizes serão publicadas em definitivo antes do encerramento do atual mandato presidencial.
O que esta em jogo: O avanço da regulamentação sobre publicidade digital coloca em rota de colisão o discurso de segurança do consumidor e a preservação de princípios básicos da livre iniciativa e da privacidade comercial. O aumento desenfreado de exigências burocráticas sobre as big techs tende a desestimular investimentos, encarecer custos para pequenos anunciantes e ampliar a ingerência do poder público sobre o fluxo de informações, consolidando precedentes perigosos contra o livre mercado no ecossistema digital brasileiro.
Com informacoes de revistaoeste.com.