Especialistas e lideranças do setor produtivo alertam que a redução forçada da jornada semanal de 44 para 40 horas ignora a baixa produtividade do país e eleva custos operacionais.

A imposição legislativa para alterar as relações de trabalho no Brasil voltou ao centro dos debates econômicos após a Câmara dos Deputados aprovar, em dois turnos, a proposta que reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, assegurando dois dias de descanso remunerado sem corte salarial. Durante o evento Conecta TMC, realizado em São Paulo em 17 de agosto de 2026, empresários e analistas manifestaram forte apreensão quanto aos impactos reais da medida sobre a produtividade, a geração de empregos e a sustentabilidade financeira das empresas, sobretudo nos setores de comércio e serviços.
A economista Zeina Latif advertiu que a comparação com nações desenvolvidas que reduziram suas jornadas ignora a realidade estrutural brasileira. De acordo com a especialista, o Brasil enfrenta um cenário crônico de baixa produtividade e envelhecimento populacional acelerado, o que já gera escassez de mão de obra em diversos segmentos. ‘A gente está sendo um pouco ousado’, pontuou Zeina, complementando: ‘Os países que caminharam para reduzir a jornada de trabalho já têm uma produtividade alta. Esse não é o caso do Brasil, que é um país que está envelhecendo muito rapidamente e em breve vai ter falta de mão de obra. Já sentimos falta de mão de obra. É arriscado, o ideal seria não trazer esse debate em ano eleitoral.’
O impacto prático nos custos operacionais também foi enfatizado pelas lideranças setoriais. Vander Giordano, conselheiro da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), destacou a ausência de avaliações técnicas sobre os reflexos nos preços finais ao consumidor e nos contratos públicos já licitados. ‘Não vi nenhum estudo sobre o impacto que isso deve trazer para as empresas ou o preço dos produtos’, afirmou Giordano, lembrando que segmentos essenciais terão de arcar com despesas adicionais: ‘A indústria farmacêutica terá um impacto em seus medicamentos. O trabalhador está disposto a isso, a pagar mais?’. Ele também levantou a reflexão sobre o desgaste urbano, questionando se o esgotamento do trabalhador decorre da carga horária em si ou do tempo excessivo gasto no trânsito.
Representantes de grandes companhias reforçaram a necessidade de segurança jurídica e liberdade de negociação setorial. Karina D’Ornelas, da varejista Riachuelo, defendeu que uma eventual transição exige previsibilidade temporal para permitir a reorganização das escalas e a capacitação de equipes sem sufocar a atividade econômica. Por sua vez, Felipe Magrim, diretor de Políticas Públicas do iFood, ressaltou os riscos da rigidez da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ponderando que o excesso de amarras regulatórias pode afastar os profissionais do mercado formal: ‘Se tiver muita rigidez, isso empurrará o trabalhador para a informalidade’.
O que está em jogo: A tentativa de decretar o fim da escala 6×1 por via constitucional impõe um modelo uniforme sobre setores com dinâmicas operacionais totalmente distintas, como o comércio varejista e a alimentação, que dependem de funcionamento contínuo. Ao elevar o custo da mão de obra sem o correspondente aumento na eficiência produtiva, a medida tende a pressionar a inflação de serviços, desestimular novas contratações formais e onerar o próprio consumidor final, revelando o perigo de intervenções estatais descoladas da realidade econômica.
Com informacoes de revistaoeste.com.