Mensagens revelam que ex-dono do Banco Master tratou de contrato de R$ 350 milhões para cruzeiros na COP30 com empresário contratado pela Embratur.

Mensagens obtidas pela Polícia Federal em um aparelho celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelaram conversas mantidas em fevereiro de 2025 com o empresário Marcelo Cohen sobre soluções logísticas para a COP30. Nos diálogos, Cohen sugeriu que uma intervenção conjunta para resolver a carência de hospedagem na conferência climática da ONU, sediada em Belém, colocaria o banqueiro na posição de “salvador da pátria” perante a cúpula do governo federal.
O contexto das trocas de mensagens coincide com um momento de forte pressão sobre o Banco Master, que na ocasião enfrentava entraves regulatórios e operacionais nas negociações de carteiras de crédito com o Banco de Brasília (BRB). Diante do déficit crônico de leitos na capital paraense para receber delegações internacionais, a Qualitours Agência de Viagens e Turismo — empresa de Cohen — acabou sendo a escolhida para fornecer cruzeiros marítimos das companhias Costa Cruzeiros e MSC Cruzeiros para acomodação oficial do evento.
Contrato milionário e laços societários
A contratação viabilizada por meio da Embratur envolveu um montante expressivo: o governo federal desembolsou R$ 350,2 milhões pelo aluguel das embarcações, cifra enviada formalmente ao Congresso Nacional que evidencia o peso financeiro da operação emergencial. Para além da transação pública, Vorcaro e Cohen mantêm laços comerciais estreitos no setor privado, sendo sócios no luxuoso hotel Botanique, em Campos do Jordão, enquanto a Qualitours integra a holding BeFly, criada com suporte de fundos vinculados ao próprio Banco Master.
Em resposta às revelações, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República negou qualquer intermediação direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou do então ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmando que nenhum dos dois participou de reuniões com Cohen a respeito do tema. Por sua vez, a Embratur declarou que a Qualitours venceu um chamamento público regular, comprovou capacidade técnica e contou com carta-fiança emitida pelo BTG Pactual, sustentando que o Banco Master não integrou formalmente o contrato.
Investigações e lacunas operacionais
O episódio afeta diretamente a imagem de lisura das contratações públicas federais voltadas a grandes eventos internacionais e amplia o desgaste político do Palácio do Planalto em torno da gestão da COP30. Do ponto de vista institucional, o caso coloca sob escrutínio os mecanismos de conformidade da Embratur e a influência exercida por agentes do sistema financeiro em demandas logísticas de Estado, beneficiando fornecedores com trânsito político enquanto o contribuinte arca com despesas excepcionais.
Resta saber, contudo, se a Polícia Federal identificará novos desdobramentos sobre a real influência política exercida nos bastidores da contratação ou se eventuais vantagens indevidas foram solicitadas nas negociações. As apurações continuam em andamento para esclarecer se o processo licitatório na Embratur sofreu interferência externa de Vorcaro ou de integrantes do primeiro escalão do governo.
O que está em jogo: A apuração da Polícia Federal sobre as conversas entre Daniel Vorcaro e Marcelo Cohen definirá se o contrato de R$ 350,2 milhões da Embratur com a Qualitours sofrerá questionamentos formais na Justiça e nos órgãos de controle, exigindo esclarecimentos adicionais da Casa Civil e do setor de turismo sobre a lisura dos gastos públicos para a COP30 em Belém.
Com informacoes de revistaoeste.com.