Levantamento abrangente da Fiesp mostra que a insegurança corrói o orçamento familiar, trava expansão industrial e desmistifica a tese da criminalidade por necessidade.

A criminalidade no Brasil há muito deixou de ser apenas uma questão restrita à segurança pública e se consolidou como um dos maiores entraves estruturais ao desenvolvimento econômico e à liberdade individual. Um pacote inédito de três pesquisas conduzidas e encomendadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) expõe com clareza o tamanho desse prejuízo. Os levantamentos partem da premissa de que a segurança não representa mero custo operacional, mas sim uma condição indispensável para a prosperidade do país, para a atração de capital e para a preservação de empregos.
No âmbito das famílias brasileiras, o impacto da violência corrói diretamente o poder de compra e restringe a mobilidade social. De acordo com a pesquisa Percepção Nacional de Segurança Pública — que ouviu mais de 2,4 mil pessoas em 658 municípios de todas as 27 unidades federativas —, 84% dos cidadãos relatam que a insegurança drena recursos do orçamento doméstico, sendo que quase oito em cada dez tiveram gastos diretos com proteção no último ano. O avanço do crime também impõe barreiras ao mercado de trabalho: 60% dos entrevistados relatam dificuldades profissionais devido à atuação de facções ou milícias, e uma em cada quatro pessoas já recusou oportunidades de emprego por medo da violência urbana.
O setor produtivo, motor da geração de riqueza e empregos, enfrenta um cenário igualmente sufocante diante da ineficiência estatal. O estudo focado na indústria de transformação paulista, que consultou 285 empresas, revelou que 25% das fábricas deixaram de investir ou expandir suas operações em decorrência da criminalidade. Para manter suas portas abertas, expressivos 98% dos estabelecimentos industriais são forçados a recorrer a gastos privados com vigilância, apólices de seguro e monitoramento, enquanto quase 20% das vítimas registram perdas superiores a 1% de seu faturamento anual. A paralisia e a desconfiança nas instituições públicas são evidenciadas pelo fato de que metade das indústrias lesadas sequer registra Boletim de Ocorrência.
Em outra frente de análise, a pesquisa coordenada pelo economista Pery Francisco Assis Shikida entrevistou cerca de 400 detentos em unidades prisionais paulistas, trazendo dados que desconstroem teses sociológicas complacentes. Apenas 6,2% dos apenados afirmaram ter cometido delitos patrimoniais ou lucrativos por necessidade real, apontando a ambição e o status como os verdadeiros motivadores para o ingresso no crime. O levantamento também revelou que quase 70% dos detentos relataram a existência de regras impostas por facções em seus bairros de origem, com 46% dos relatos apontando o crime organizado ocupando e usurpando funções básicas que deveriam caber ao poder público.
Além das ameaças físicas tradicionais, a modernização do delito expõe o setor privado a vulnerabilidades digitais sem precedentes. Os crimes virtuais dobraram desde 2023 e já lideram o ranking de delitos contra as indústrias, atingindo cerca de 20% das plantas fabris. Para 70% dos industriais consultados, a sobrecarga gerada pela criminalidade prejudica severamente a competitividade dos produtos brasileiros no comércio exterior, configurando um verdadeiro imposto oculto que encarece a produção nacional e afasta investimentos internacionais indispensáveis ao crescimento econômico.
O que esta em jogo: A preservação da ordem pública e da segurança jurídica é o alicerce fundamental para a garantia da propriedade privada, o florescimento da livre iniciativa e a proteção das famílias. Quando o Estado falha em seu dever elementar de reprimir a criminalidade e manter a soberania territorial frente ao avanço de facções, impõe-se um fardo desmedido sobre o cidadão pagador de impostos e sobre o setor produtivo. Superar a complacência com a desordem e assegurar um ambiente seguro é o único caminho viável para reduzir o chamado Custo Brasil e devolver à sociedade a liberdade de trabalhar, investir e prosperar.
Com informacoes de revistaoeste.com.