Diálogos obtidos pela PF mostram que Daniel Vorcaro planejou financiar campanha na OAB com R$ 10 milhões e uso de avião.

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelaram uma tentativa de interferência do poder econômico na representação máxima da advocacia brasileira. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e seu então diretor jurídico, Luiz Rennó, articularam no início de 2024 um esquema para bancar a pré-campanha de Sérgio Leonardo ao comando do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O plano, batizado internamente de “projeto OAB Nacional”, pretendia operar nos bastidores para construir palanques estaduais e garantir influência sobre a futura cúpula da entidade.
Articulações regionais e aporte milionário
Pelas regras institucionais da OAB, um candidato precisa do apoio formal de pelo menos seis dos 27 conselhos seccionais para conseguir disputar a presidência nacional. Para atingir essa meta, os diálogos mostram que Vorcaro e Rennó miravam diretórios em estados como Espírito Santo, Roraima, Piauí, Pará e Mato Grosso, além de cogitarem nomes no Maranhão. Em fevereiro de 2024, Rennó chegou a estimar o custo da operação em “dez pratas”, em referência direta a um orçamento de R$ 10 milhões — um volume financeiro expressivo e desproporcional para pleitos corporativos de classe, suficiente para cobrir despesas de dezenas de viagens, eventos e logística pesada em múltiplos estados.
Além dos repasses financeiros, a estrutura envolvia facilidades logísticas de alto padrão. Vorcaro colocou à disposição sua aeronave particular para deslocamentos e viagens internacionais. O planejamento da dupla previa passagens por eventos jurídicos em Madri, Lisboa e Coimbra, em Portugal, com o intuito de aproximar o candidato de lideranças dos tribunais superiores. O ex-banqueiro também sugeriu um compromisso em Londres que contaria com a presença do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), evidenciando a intenção de usar o prestígio acadêmico e institucional internacional para legitimar o projeto.
Recuo do plano e lacunas
Apesar da ambição do projeto, a investida perdeu tração poucos meses depois. Em maio de 2024, Vorcaro manifestou recuo e declarou considerar a vitória de Leonardo inviável, apontando haver uma forte resistência instalada no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Rennó ainda tentou insistir na viabilidade da empreitada por meio do trabalho financeiro nas bases seccionais, mas a articulação ruiu. O desfecho institucional consolidou-se em fevereiro de 2025, quando Beto Simonetti obteve a reeleição como presidente nacional da OAB com 100% dos votos dos conselheiros.
A investigação policial deixa, contudo, lacunas cruciais em aberto sobre o alcance das conversas. As mensagens revelam os planos formulados por Vorcaro e Rennó, mas ainda não se sabe se Sérgio Leonardo de fato aceitou recursos financeiros, utilizou o avião oferecido ou se sequer teve ciência das tratativas tratadas entre os executivos do banco. Também não está esclarecido se a PF abrirá novos inquéritos formais sobre os dirigentes das seccionais estaduais citadas nos diálogos.
O que está em jogo: A apuração expõe a vulnerabilidade de entidades representativas de classe frente ao assédio financeiro privado e a disputas de poder. Na prática, o desdobramento do inquérito da Polícia Federal pode impactar a blindagem interna da OAB contra financiamentos paralelos, exigindo que a gestão reeleita de Beto Simonetti e o Conselho Federal fiscalizem com mais rigor as campanhas seccionais a partir de 2025.
Com informacoes de revistaoeste.com.