Em palestra na Bahia, ministro do STF reconheceu a hipertrofia judicial no país, justificando a interferência do tribunal em pautas estruturais sob o pretexto de omissão legislativa.

Durante pronunciamento realizado para estudantes na Universidade Federal da Bahia, em 28 de agosto de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, reconheceu publicamente a existência de um ‘ultraprotagonismo’ do Judiciário no cenário institucional brasileiro. Em sua fala, o magistrado admitiu que essa concentração excessiva de poder ‘não é desejável’, mas buscou justificar a postura expansiva da Suprema Corte sob a alegação de que o tribunal precisa intervir para resguardar preceitos constitucionais e suprir eventuais inações dos demais poderes da República.
Ao fundamentar a atuação frequente do STF em matérias que tradicionalmente caberiam ao Legislativo e ao Executivo, Dino declarou que o tribunal não pode ‘sair correndo’ ou recuar diante das provocações jurídicas que recebe. Segundo o ministro, a Corte tem sido compelida a intervir em temas estruturais complexos — exemplificando com áreas como a saúde indígena, a regulação ambiental e a gestão do sistema penitenciário — devido à incapacidade ou omissão dos órgãos representativos eleitos em solucionar tais impasses.
A tese de que o Judiciário deve funcionar como uma instância corretiva para decisões políticas contrasta diretamente com as críticas crescentes sobre o desrespeito ao princípio da separação de Poderes e ao equilíbrio institucional. Para analistas do meio jurídico e defensores das prerrogativas constitucionais, o ativismo judicial progressivo tende a enfraquecer a representatividade popular do Congresso Nacional e a desestabilizar o sistema de freios e contrapesos, transferindo deliberações de amplo impacto social a magistrados que não passaram pelo crivo do voto popular.
As declarações de Flávio Dino ganham contornos ainda mais sensíveis em meio a controvérsias recentes envolvendo a própria Corte e a garantia de liberdades fundamentais. O tribunal autorizou medidas direcionadas ao ex-secretário de Segurança do Maranhão, Raimundo Cutrim, apontado como fonte do jornalista Luís Pablo em apurações sobre o suposto uso irregular de veículos do Tribunal de Justiça local por Dino e seus familiares. A ação provocou forte apreensão entre entidades de imprensa e operadores do Direito, que enxergam na medida um precedente perigoso contra a cláusula constitucional que assegura expressamente o sigilo da fonte.
O que esta em jogo: A assunção pública de um ‘ultraprotagonismo’ judicial coloca no centro do debate os limites constitucionais da Suprema Corte e o risco de erosão do Estado Democrático de Direito. Enquanto o tribunal justifica suas decisões pela necessidade de preencher lacunas políticas, setores da sociedade alertam que a expansão desmedida da jurisdição constitucional debilita o livre exercício da atividade jornalística, relativiza garantias individuais basilares e enfraquece a soberania popular materializada nas Casas legislativas.
Com informacoes de revistaoeste.com.