Engenharia em Aspendos utilizou sifões invertidos e torres hidráulicas para abastecer cidade romana através de vale complexo no sul da Turquia.

A capacidade da civilização clássica de transformar o ambiente para viabilizar o florescimento urbano continua a surpreender a ciência moderna. Na antiga cidade de Aspendos, localizada no sul da atual Turquia, engenheiros do Império Romano ergueram um sofisticado sistema hidráulico de quase 20 quilômetros para transportar água potável a partir de nascentes montanhosas. Em vez de dependerem unicamente de monumentais arcos elevados, os construtores recorreram a soluções avançadas de física para superar um vale profundo que separava as fontes do centro cívico, garantindo o abastecimento contínuo de fontes, termas e residências.
Engenharia de precisão nas montanhas turcas
As nascentes que alimentavam o complexo estavam situadas nas regiões de Gökçeler e Pınarbaşı, a aproximadamente 500 metros de altitude e cerca de 19 quilômetros de distância do destino final. Para conduzir o fluxo, os romanos projetaram canais de alvenaria com declividade suave, pontes e túneis que acompanhavam a topografia. No entanto, o desafio crítico residia no trecho terminal: um vale de 1,67 quilômetro exigiria arcadas vertiginosas e estruturalmente inviáveis para a época caso fosse mantido o canal aberto tradicional. A alternativa foi o emprego do princípio do sifão invertido, fazendo a água descer em tubulações seladas e subir novamente pela própria força da pressão hidrostática.
A estrutura de pressão foi construída a partir de blocos maciços de calcário cuidadosamente perfurados com orifícios de cerca de 28 centímetros de diâmetro. Encaixadas em linha contínua, as peças eram vedadas com uma mistura especial à base de cal e óleo para conter os vazamentos sob alta carga. O sistema incorporava duas grandes torres hidráulicas de alvenaria — com seções preservadas que atingem cerca de 30 metros de altura —, dividindo a travessia pressurizada em três segmentos distintos sobre arcadas que sustentavam o traçado no fundo do vale.
Estudos modernos e lacunas históricas
A função exata das torres ainda divide especialistas, embora pesquisas recentes com dinâmica dos fluidos computacional, divulgadas no Journal of Archaeological Science, indiquem que os reservatórios abertos no topo das estruturas serviam para aliviar ondas de choque hidráulico e expulsar bolhas de ar durante o enchimento. Em termos econômicos e cronológicos, registros epigráficos apontam que o cidadão Tiberius Claudius Italicus financiou a obra por cerca de dois milhões de denários entre o século II e o século III d.C. O investimento vultoso reflete o papel central da iniciativa privada e da benfeitoria cívica na sustentação da infraestrutura romana.
Atualmente, o conjunto arqueológico de Aspendos integra a Lista Indicativa da Turquia para o Patrimônio Mundial da UNESCO, atraindo o interesse de pesquisadores e do setor de turismo cultural. O avanço nas modelagens hidrodinâmicas beneficia historiadores e engenheiros que buscam desvendar técnicas antigas de contenção de fluxo, embora ainda não se saiba com exatidão como a manutenção periódica desses dutos subterrâneos e pressurizados era realizada sem interromper de forma prolongada o fornecimento à população.
O que está em jogo: A preservação das ruínas de Aspendos e o avanço dos estudos da UNESCO sobre os sifões invertidos determinam se o sítio arqueológico turco obterá o status definitivo de Patrimônio Mundial, influenciando o financiamento internacional para conservação das torres de 30 metros e dos 1,67 km de travessia hidráulica romana.
Com informacoes de oantagonista.com.br.