Em entrevista, líder do regime cubano reconhece colapso nos serviços básicos e alta nos preços, mas insiste na manutenção do modelo socialista.

O líder do regime comunista de Cuba, Miguel Díaz-Canel, admitiu publicamente que a população da ilha enfrenta um cenário severo de “sofrimento” diante do aprofundamento da crise socioeconômica. Em entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo, o mandatário classificou a conjuntura nacional como “complexa”, embora tenha rejeitado categoricamente a tese de que o país esteja à beira de um colapso institucional ou que a cúpula governista esteja perdendo a governabilidade.
O cotidiano dos cidadãos cubanos segue marcado por apagões elétricos constantes, desabastecimento crítico de água, infraestrutura de transporte público precária e limitações graves na rede hospitalar. Paralelamente à escassez de serviços essenciais promovidos pelo Estado, a inflação corrói o poder de compra da população, com alimentos e remédios atingindo preços exorbitantes, sobretudo no mercado informal. Durante a entrevista, Díaz-Canel chegou a concordar com análises de especialistas internacionais que comparam a gravidade da situação na ilha a uma “Gaza silenciosa”.
Como tentativa de mitigar o quadro de paralisia produtiva, a administração cubana aprovou em junho um pacote composto por 176 medidas com o objetivo de descentralizar atividades econômicas. O plano inclui a concessão de maior espaço operacional para empresas privadas e autoriza companhias estrangeiras a explorarem terras agrícolas por períodos de até 99 anos. Contudo, Díaz-Canel fez questão de negar que tais reformas sinalizem uma abertura de livre mercado. “Estamos em um processo de construção socialista”, sustentou o dirigente.
Mantendo a retórica tradicional de Havana, o governante atribuiu a maior parte do descalabro econômico às sanções impostas pelos Estados Unidos e dirigiu críticas ao presidente Donald Trump. De acordo com Díaz-Canel, a estratégia norte-americana visa “subjugar” a ilha e forçar uma convulsão social: “O imperialismo está tentando, por todos os meios, nos asfixiar economicamente para provocar uma explosão social”, declarou, completando que Washington busca induzir uma ruptura entre a população e o regime comunista.
Diante do diálogo diplomático considerado por ele como “estagnado” e sem previsão de novas rodadas de negociação com a Casa Branca, Díaz-Canel reiterou que a postura oficial será de confronto. Questionado a respeito de uma eventual intervenção militar externa e do desfecho pessoal de sua liderança, o ditador afirmou: “Não temos alternativa senão resistir” e acrescentou que, se chegar a sua hora, “não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando”.
O que esta em jogo: O reconhecimento da crise pelo comando cubano expõe o esgotamento do modelo de planejamento central e estatizante que sufoca a iniciativa privada e a liberdade individual há décadas. Enquanto o regime tenta implementar reformas periféricas sem abrir mão do controle político e da cartilha ideológica, a deterioração das condições mais básicas de vida pressiona a estabilidade interna e reacende tensões geopolíticas fundamentais para o equilíbrio das Américas.
Com informacoes de revistaoeste.com.