Investigação detalha como o regime norte-coreano utiliza identidades roubadas, intermediários ocidentais e inteligência artificial para desviar milhões de dólares em salários corporativos.

Um cidadão norte-americano chamado Michael Brown descobriu de maneira acidental que possuía uma carreira paralela fantasma. Ao procurar o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos para verificar dados referentes ao seguro-desemprego, ele foi confrontado com registros fiscais que apontavam vínculos empregatícios simultâneos em múltiplos estados e ganhos que somavam aproximadamente US$ 100 mil dos quais nunca viu um centavo, além da abertura não autorizada de um plano de aposentadoria. O caso revelou a ponta de um sofisticado esquema internacional operado a mando da ditadura de Kim Jong-un, que transformou a flexibilidade do trabalho remoto ocidental em uma máquina bilionária de arrecadação financeira para contornar sanções globais.
De acordo com uma investigação detalhada conduzida pelo jornal The Wall Street Journal durante um ano, agentes norte-coreanos criaram uma verdadeira linha de produção industrial para fraudar processos seletivos em empresas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Com dados extraídos de computadores de uma célula comandada sob o codinome Eagle Vision, constatou-se que a operação contava com equipes dedicadas à confecção de currículos falsificados, cartas de apresentação forjadas e a realização massiva de entrevistas. Em apenas três meses, a célula submeteu mais de mil candidaturas, assegurando ao menos nove postos de trabalho. Durante as entrevistas em vídeo, os fraudadores utilizavam sistemas de transcrição em tempo real integrados à inteligência artificial ChatGPT para responder a testes técnicos de engenharia de software.
Para superar a barreira logística do recebimento obrigatório de computadores corporativos, o regime comunista cooptou cidadãos residentes nos Estados Unidos que atuavam como facilitadores operacionais. Um deles, Derek Goon, residente na zona rural de Ohio, relatou que mantinha notebooks corporativos ligados em sua residência para permitir o acesso remoto dos operadores estrangeiros. Goon também chegava a dar a cara nas entrevistas iniciais, dividindo salários — como um contrato anual de US$ 75 mil, do qual retinha metade enquanto o restante era repassado em criptomoedas. A investigação apontou a existência das chamadas “fazendas de notebooks”, onde uma única residência chegava a abrigar cerca de 100 máquinas conectadas simultaneamente. Autoridades norte-americanas já prenderam ou indiciaram 39 pessoas ligadas a essas estruturas auxiliares.
Os números que sustentam o aparato estatal de espionagem e captação financeira de Pyongyang revelam uma ameaça em escala global. Estima-se que, somente em 2025, o regime ditatorial tenha mobilizado entre 1,6 mil e 3 mil profissionais de tecnologia altamente qualificados para atuar disfarçados em corporações ocidentais. Em determinados casos, as remunerações alcançam mais de US$ 300 mil por ano. Dados do Departamento do Tesouro dos EUA apontam que até 90% de toda a renda gerada por esses trabalhadores clandestinos é confiscada e direcionada diretamente aos cofres da ditadura. A maior parte dessa força de trabalho atua a partir de bases em território chinês — como a cidade fronteiriça de Shenyang —, na Rússia ou na própria Coreia do Norte, áreas que inviabilizam a ação direta da Justiça ocidental.
O que esta em jogo: A infiltração de agentes de um regime totalitário em infraestruturas corporativas do Ocidente expõe a vulnerabilidade das políticas corporativas modernas e demonstra como nações párias exploram brechas do livre mercado para financiar ambições nucleares e bélicas. Em um cenário geopolítico tenso, a conivência indireta de nações autoritárias que abrigam essas células reforça a necessidade urgente de soberania de dados, controles rigorosos de identidade e proteção ativa do ecossistema econômico contra fraudes promovidas por governos hostis às liberdades ocidentais.
Com informacoes de revistaoeste.com.