Com torre de 65 metros e rica história tropeira, a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes reflete a identidade cultural e o vigor econômico da serra gaúcha.

A consolidação urbana e cultural de Canela, localizada a 837 metros de altitude na Serra Gaúcha, carrega raízes profundas ligadas ao trabalho, à religiosidade e à preservação histórica. Diferente de localidades batizadas por santos ou rios, o município deve seu nome a uma antiga caneleira que servia de repouso aos tropeiros que cruzavam a região transportando gado e mercadorias. A área, concedida pela Coroa Portuguesa em 1821 a Joaquim da Silva Esteves sob a denominação de Campestre Canella, transformou-se gradualmente em um próspero centro comunitário, impulsionado pela ferrovia concluída em 1924 pelo Coronel João Corrêa Ferreira da Silva e pelo desenvolvimento da Companhia Florestal Riograndense, antes de sua emancipação definitiva consolidada pelo Decreto-Lei Estadual nº 717, de 1944.
No coração dessa trajetória ergue-se a imponente Igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, popularmente conhecida como Catedral de Pedra. Projetada em estilo neogótico inglês pelo arquiteto Bernardo Sartori e idealizada pelo cônego João Marchesi — cujos restos mortais descansam no próprio templo —, a edificação exigiu 34 anos de esforço contínuo entre 1953 e 1987. A singularidade do processo construtivo residiu na técnica adotada: as novas paredes de pedra basáltica foram erguidas ao redor da antiga matriz paroquial, permitindo que a comunidade mantivesse suas celebrações religiosas ininterruptas até a demolição interna da estrutura primitiva. O acabamento gradual, desde o forro em 1978 até a colocação do piso de basalto em 1982 e a porta de mogno esculpida em 1987, reflete a perseverança e o senso de pertencimento da população local.
A grandiosidade do monumento traduz-se em números expressivos que compõem o cenário urbano da cidade. A imponente torre central atinge 65 metros de altura, ladeada por duas torres menores, abrigando o Museu Os Sinos da Catedral e o Carrilhão da Independência, composto por 12 sinos de bronze fundidos pela fundição italiana Giácomo Crespi em 1972. Cada sino homenageia vultos fundamentais da construção nacional, como Dom Pedro I, José Bonifácio e Tiradentes. O templo, adornado por vitrais que retratam a Ladainha de Nossa Senhora doados por famílias da própria comunidade, foi eleito em 2010 como uma das Sete Maravilhas do Brasil por votação popular e conquistou a 10ª posição no Prêmio Travellers’ Choice 2025 do Tripadvisor entre as melhores atrações do país.
Além do expressivo patrimônio sacro, Canela consolidou uma vocação turística sustentada pela iniciativa privada e pelas belezas naturais, dividindo com Gramado um dos polos mais dinâmicos do Sul do país. A cidade integra atrações como o Parque Estadual do Caracol — que abriga a famosa cascata de 131 metros de queda livre sobre formações basálticas, sob gestão por concessão acompanhada pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) —, a restaurada Torre da Araucária de 27 metros e eventos tradicionais que movimentam a economia regional, como o Sonho de Natal. A preservação da memória local é resguardada inclusive pela Lei Municipal nº 058 de 1963, que imortalizou no brasão municipal a árvore histórica e as águas do Caracol.
O que esta em jogo: A valorização de monumentos como a Catedral de Pedra e o resgate da memória tropeira reafirmam o papel indispensável da fé, da tradição comunitária e da iniciativa ordenada no desenvolvimento dos municípios brasileiros. Em um contexto em que o turismo cultural e religioso impulsiona a economia local gerando empregos e valorizando o patrimônio arquitetônico, Canela demonstra como o respeito às raízes históricas e o trabalho árduo de gerações são capazes de transformar um antigo pouso de estrada em uma referência duradoura de beleza e devoção para todo o país.
Com informacoes de oantagonista.com.br.