Análise do exemplar Dakota, da espécie Edmontosaurus, revela que ação de carnívoros auxiliou na dessecação e preservação dérmica antes do soterramento.

A descoberta e o detalhamento do fóssil conhecido como “Dakota” — um exemplar do dinossauro herbívoro Edmontosaurus (NDGS 2000) encontrado na Formação Hell Creek, em Dakota do Norte — trouxeram novas perspectivas para a paleontologia sobre a conservação de tecidos moles. Datado de aproximadamente 67 milhões de anos, período próximo ao fim do Cretáceo, o espécime preservou extensas porções de pele tridimensionalmente mineralizada, mesmo após ter sido parcialmente consumido por predadores e carniceiros da época.
O consenso científico predominante sustentava que a fossilização de tecidos moles e a formação das chamadas “múmias de dinossauro” demandavam um soterramento quase instantâneo após a morte do animal. Esse processo rápido era tido como indispensável para blindar a carcaça contra o ataque de animais necrófagos, a proliferação bacteriana e a consequente decomposição acelerada. No entanto, as evidências físicas observadas em Dakota contrariam diretamente essa premissa tradicional.
Durante a preparação e a análise laboratorial das estruturas antes ocultas, pesquisadores identificaram danos severos e sem sinais de cicatrização. No membro dianteiro direito, a cobertura dérmica apresentava pelo menos 17 perfurações, além de ter sido rasgada e deslocada para baixo, expondo tecidos e ossos subjacentes. A cauda exibia sulcos profundos, e ossos como o úmero e o rádio continham marcas diagnósticas de mordidas atribuídas a crocodiliformes. Estimativas dos especialistas indicam a interação de pelo menos dois grandes predadores com a carcaça, grupo que no ecossistema local incluía também grandes deinonicossauros e exemplares juvenis de Tyrannosaurus rex.
A interpretação dos cientistas sugere um paradoxo na preservação fóssil: a ação dos carnívoros ao dilacerar o corpo permitiu a drenagem rápida de líquidos, gases e compostos bacterianos da decomposição interna. Com a carcaça aberta e exposta ao ambiente por semanas ou meses, a pele restante — naturalmente mais densa e resistente — passou por um processo prolongado de desidratação e secagem antes de sofrer o soterramento final. A combinação de tomografias computadorizadas e exames sedimentares comprovou a presença de uma camada dérmica desidratada sobre ossos articulados, sem a preservação correspondente de órgãos internos.
O que esta em jogo: A constatação amplia de forma significativa as hipóteses e cenários geológicos nos quais cientistas podem buscar e identificar fósseis com tecidos moles conservados. Ao demonstrar que a preservação excepcional de pele não depende exclusivamente de eventos de sepultamento catastrófico e imediato, o estudo abre precedentes para reavaliar a dinâmica ambiental do final da era dos dinossauros e reforça o rigor investigativo necessário para compreender os processos biológicos e tafonômicos da história da Terra.
Com informacoes de oantagonista.com.br.