Musical em São Paulo resgata o legado artístico e a disciplina teatral de Bibi Ferreira por meio de memórias e interpretações marcantes.

A trajetória artística brasileira carrega capítulos moldados pelo rigor, pela dedicação incansável e pelo respeito à vocação cênica. Um exemplo vivo dessa transmissão de valores ocorreu quando a atriz Fernanda Biancamano, hoje com 36 anos, tinha apenas 8 anos de idade e ensaiava para o espetáculo infantil Libel, a Sapateirinha. Sob a direção de Tina Ferreira, filha da consagrada Bibi Ferreira (1922–2019), a jovem artista teve um encontro transformador na residência da família, localizada no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, momento em que a veterana sentou-se ao piano e entoou clássicos com a intensidade de uma apresentação no Carnegie Hall.
Naquela ocasião, Bibi Ferreira interpretou a célebre canção Non, Je ne Regrette Rien, imortalizada por Edith Piaf, e ofereceu um conselho que definiria a postura profissional da jovem dali em diante: a lembrança expressa de que a atuação não é mera vaidade, mas sim um trabalho sério e contínuo. Ao dizer “Minha filha, você tem talento e o que está fazendo aqui é um ofício, nunca se esqueça disto”, a dama do teatro sintetizou a mentalidade de uma carreira de quase oito décadas pautada pela excelência e pela disciplina técnica.
Décadas após o episódio, a reverência a esse padrão de excelência ganha vida nos palcos com o espetáculo O Céu de Bibi Ferreira, em cartaz no Teatro do Sesi, na Avenida Paulista, em São Paulo, com apresentações programadas até 20 de setembro. Após temporadas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, a produção conta com dramaturgia de Gabriel Chalita, direção musical de Carlos Bauzys e direção geral de Gustavo Barchilon, reunindo no elenco, além de Fernanda, as atrizes Bárbara Sut, Carol Botelho e Giulia Nadruz para representar diferentes facetas e nuances da homenageada.
O espetáculo revisita momentos cruciais da formação de Abigail Izquierdo Ferreira, destacando a influência determinante de sua família artística: seu pai, o célebre ator Procópio Ferreira, e sua mãe, a bailarina e cantora espanhola Aída Izquierdo, responsável por sua conexão profunda com o idioma e a cultura hispânica. A montagem costura memórias a um repertório robusto que abrange desde temas da Broadway, como New York, New York e My Fair Lady, composições de Cole Porter, tangos como Por Una Cabeza de Carlos Gardel, até o fado português de Amália Rodrigues (1920–1999) e o dramático Monólogo das Mãos, de Giuseppe Ghiaroni.
A precisão e a força cênica de Bibi já haviam sido reconhecidas precocemente por grandes nomes das letras nacionais, a exemplo do dramaturgo Nelson Rodrigues, que em 1954 confiou a ela a direção da peça Senhora dos Afogados, elogiando sua notável plasticidade e rigor na marcação de cena dos atores. Esse legado histórico reafirma que o valor da arte reside na busca pela maturidade técnica e no comprometimento com a verdade interpretativa, elementos centrais preservados na montagem atual.
O que esta em jogo: A celebração de trajetórias como a de Bibi Ferreira resgata o compromisso com o mérito, o domínio técnico e o valor do trabalho árduo na formação cultural de uma nação. Ao enfatizar a arte como um ofício construído com base em virtudes clássicas e herança familiar, o teatro cumpre o papel de preservar a memória de grandes referências e inspirar novas gerações a priorizarem a excelência profissional sobre o efêmero.
Com informacoes de revistaoeste.com.