O Projeto de Lei da Misoginia, em tramitação na Câmara dos Deputados, enfrenta críticas da deputada Bia Kicis, que aponta o risco de criminalizar a opinião e a liberdade de expressão sob o pretexto de combater o ódio contra mulheres.

Um intenso debate político e jurídico se acende em torno do Projeto de Lei (PL) da Misoginia, relatado pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP) e de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA). A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) lançou um alerta sobre os potenciais impactos da proposta, afirmando que o texto, que pode ser votado na Câmara ainda nesta semana, representa um risco direto à liberdade de expressão e, inclusive, à interpretação religiosa.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Bia Kicis criticou veementemente o projeto, sustentando que ele “não protege mulheres” e, ao invés disso, pode “criminalizar opinião, piada, crítica e até interpretação religiosa”. A parlamentar sugere que a iniciativa, que se apresenta como um “combate ao ódio”, corre o risco de se transformar em uma “mordaça na boca de milhões de brasileiros”, ampliando o controle sobre manifestações que discordem, critiquem ou até mesmo interpretem religiosamente questões femininas.
A preocupação central de Kicis reside na abrangência do texto, que altera a Lei do Racismo para incluir a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação. Ela argumenta que equiparar discursos e opiniões a crimes graves como o feminicídio não fortalece a proteção às vítimas, mas sim “banaliza a violência contra mulher” e “cria confusão” ao invés de “proteção nova”. Essa equiparação de diferentes níveis de gravidade jurídica é um dos pontos mais polêmicos, gerando apreensão quanto à desproporcionalidade das sanções.
O PL 896/2023, que já foi aprovado por unanimidade no Senado no início de 2026 e passou pela comissão especial da Câmara, aguarda agora a votação em plenário. A relatora, Tabata Amaral, tem buscado negociar a redação para reduzir as críticas, especialmente da oposição e da bancada evangélica. Uma nova versão do parecer substituiu a definição original de misoginia baseada em “ódio ou aversão às mulheres” por uma descrição mais detalhada que a caracteriza como a prática, indução ou incitação ao menosprezo ou discriminação que promova violência, negue direitos ou ofenda a dignidade feminina. Contudo, as garantias à liberdade religiosa e de expressão ainda são pontos-chave de resistência e negociação.
A tramitação do projeto reflete um tensionamento entre a necessidade de combater a violência e a discriminação contra mulheres e o imperativo de salvaguardar as liberdades individuais. A crítica de parlamentares como Bia Kicis ressalta o perigo de que, ao tentar coibir o que se entende por misoginia, o Estado possa inadvertidamente abrir precedentes para a censura de ideias e a restrição de manifestações que, embora impopulares ou controversas, não configuram incitação à violência ou negação de direitos fundamentais. O desfecho dessa votação definirá a extensão da legislação sobre discursos e opiniões no Brasil.
O que está em jogo: A aprovação do PL da Misoginia pode redefinir os limites da liberdade de expressão e religiosa no Brasil, criminalizando condutas que, para críticos, são meras opiniões, e alterando significativamente a Lei do Racismo para incluir o conceito de misoginia.
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