Descoberta de fósseis e pólen no Texas revela como florestas úmidas deram lugar ao deserto atual ao longo de treze milênios de história.

A compreensão profunda da história natural da Terra depende, muitas vezes, de registros improváveis deixados pelo tempo. Nas profundezas das Guadalupe Mountains, no oeste do Texas, cavernas extremamente secas funcionaram como cápsulas geológicas capazes de preservar matéria orgânica por milênios. Registros fósseis que incluem fezes desseca das preguiças-terrestres-de-Shasta (Nothrotheriops shastensis), pelos, fragmentos de pele e grãos de pólen permitiram a cientistas reconstruir uma linha do tempo de 13 mil anos de transformações ambientais na América do Norte.
Arquivo fóssil nas montanhas do Texas
Identificadas pelo National Park Service dos Estados Unidos, quatro cavernas específicas no Guadalupe Mountains National Park concentram esse acervo: Lower Sloth Cave, Upper Sloth Cave, Dust Cave e Williams Cave. Elas integram um seleto grupo de apenas dez cavernas catalogadas no mundo pela agência norte-americana que contêm fezes fossilizadas desses animais gigantes. Em condições normais de umidade, a decomposição biológica eliminaria esses resquícios em poucas semanas, mas o microclima árido das cavidades permitiu uma dessecação quase perfeita ao longo das eras geológicas.
As análises laboratoriais e a datação por radiocarbono situam os materiais vegetais e dejetos entre 11 mil e 13 mil anos atrás, período que marca a transição dramática do Pleistoceno para o Holoceno. Em termos de escala temporal, esse intervalo equivale a mais de uma centena de séculos de história climática ininterrupta, registrando o momento exato em que o planeta encerrava seu último ciclo glacial. As amostras de agulhas de Picea datadas desse período comprovam que a região abrigava coníferas, abetos e zimbros, compondo uma densa floresta fria onde hoje predomina a aridez absoluta do deserto de Chihuahua.
Evidências botânicas revelam nova cronologia
A reconstrução desse ecossistema ancestral combina macrofósseis vegetais — como folhas, sementes e galhos — com o pólen microscópico acumulado ao longo de sucessivas camadas sedimentares. Essa metodologia multidisciplinar permite contrapor as exigências biológicas de plantas extintas na área com a dieta real dos grandes herbívoros. O confronto dessas evidências evidencia que o recuo da vegetação úmida e o avanço gradual da flora xerófita decorreram de uma reorganização climática estrutural, forçando o deslocamento e a extinção de espécies não adaptadas à nova realidade térmica.
Embora as camadas sedimentares já tenham esclarecido as linhas gerais da substituição florística regional, a ciência ainda não determinou com exatidão qual foi o ritmo diário ou sazonal dessas variações climáticas milenares, tampouco a velocidade exata com que as populações de preguiças gigantes sucumbiram à aridez. Os pesquisadores e paleontólogos vinculados aos parques americanos ganham dados essenciais para refinar modelos ecológicos, enquanto teorias simplistas sobre a estabilidade do clima perdem sustentação diante das provas de transformações profundas e naturais ocorridas no continente.
O que está em jogo: A análise dos registros no Guadalupe Mountains National Park fornece subsídios empíricos para compreender como a fauna e a flora respondem a longos ciclos de transição térmica, cabendo ao National Park Service e à comunidade científica aprofundar as datações radiométricas nas cavernas Lower Sloth e Williams Cave para mapear a velocidade precisa do desaparecimento da megafauna pleistocênica.
Com informacoes de oantagonista.com.br.