Mensagens revelam que estadia de R$ 32,7 mil para ex-assessor de Lula foi bancada durante negociações de contrato entre a Unigel e a Petrobras.

A Polícia Federal identificou diálogos que colocam o Palácio do Planalto sob suspeita de favorecimento a interesses empresariais privados. Mensagens interceptadas mostram que Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ganhou uma hospedagem de réveillon em Paraty (RJ) no valor de R$ 32,7 mil. O benefício ocorreu em pleno período de tratativas de um contrato milionário e controverso entre o grupo químico Unigel e a Petrobras, estatal que historicamente sofre com o aparelhamento político e pressões governamentais.
A operação financeira para bancar o descanso de luxo do assessor palaciano foi dividida em duas etapas para evitar rastros evidentes. A lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís da Silva (o Lulinha), intermediou a reserva e quitou uma entrada de R$ 13,6 mil. A fatia restante, de R$ 19 mil, foi paga por Leo Slezynger, herdeiro da própria Unigel. Em termos de valores, a despesa do réveillon equivale a mais de duas dezenas de salários mínimos nacionais da época, bancados diretamente por partes diretamente interessadas em decisões da cúpula do governo federal.
Troca de favores e pressão política
As investigações apontam que a estadia não foi um ato desinteressado. Em 27 de novembro de 2023, Roberta escreveu explicitamente a Slezynger que Marcola era “a figura mais importante” e que precisariam dele “por muito tempo”. A lobista também articulou reuniões entre o então chefe de gabinete e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, visando acelerar o acordo de fornecimento de gás natural em troca de fertilizantes. O contrato, fechado formalmente em 29 de dezembro de 2023, enfrentava forte resistência técnica da diretoria da Petrobras devido aos evidentes riscos de prejuízos bilionários aos cofres públicos e aos acionistas minoritários da estatal.
Em outro trecho que agrava as suspeitas de direcionamento e interferência no livre mercado, a lobista comemorou o fechamento do negócio afirmando que a assinatura do modelo de “tolling” só ocorrera devido a uma intervenção direta do presidente. Além da diária em Paraty, foram oferecidos a Marcola o uso de um carro blindado e cobertura irrestrita de despesas adicionais no hotel, revelando o nível de intimidade e promiscuidade entre o setor de lobby e os quadros de confiança do Poder Executivo.
Defesas apresentadas e lacunas da apuração
Diante das revelações, a defesa de Marcola declarou que os custos da viagem integraram um empréstimo pessoal concedido por Roberta e quitado posteriormente com correção monetária, em uma operação global de R$ 249 mil. Ele negou qualquer favorecimento indevido ou o uso do veículo blindado. O Palácio do Planalto e o Ministério de Minas e Energia refutaram qualquer interferência indevida de Lula ou Silveira. Já o advogado de Roberta acusou o vazamento de ser criminoso, enquanto Slezynger não se pronunciou e a defesa de Lulinha alegou não ter tido acesso integral aos autos.
A apuração agora tramita sob sigilo rigoroso no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Flávio Dino. O caso expõe a vitória momentânea de grupos privados que buscam subsídios estatais em detrimento da higidez fiscal e da governança da Petrobras, que sai prejudicada financeiramente ao ser forçada a assumir riscos de terceiros. Ainda restam lacunas cruciais sem resposta: a PF ainda precisa comprovar se o montante de R$ 249 mil pago por Marcola cobriu integralmente as vantagens indevidas e esclarecer a extensão exata do envolvimento de Lulinha no inquérito.
O que está em jogo: A apuração conduzida pelo ministro Flávio Dino no STF definirá se integrantes do primeiro escalão de Lula responderão por corrupção ou advocacia administrativa na Petrobras. Resta observar os próximos desdobramentos periciais da PF nas contas de Leo Slezynger e Roberta Luchsinger para apurar a legalidade do contrato de fertilizantes de 29 de dezembro de 2023.
Com informacoes de revistaoeste.com.