Nos dez primeiros dias de campanha, legendas concentram R$ 648,5 milhões em repasses, com PL e PT liderando os maiores montantes do Fundo Eleitoral.

O início oficial da corrida eleitoral de 2026 expõe com clareza o peso desproporcional das cúpulas partidárias sobre o processo democrático nacional. Em apenas dez dias de campanha aberta, os candidatos de todo o país registraram uma arrecadação total de R$ 770 milhões. Desse montante expressivo, nada menos que 85% — o equivalente a R$ 648,5 milhões — teve origem direta nos caixas partidários, alimentados fundamentalmente por verbas públicas. O volume contrasta fortemente com o engajamento voluntário da sociedade civil, já que doações de pessoas físicas, financiamento coletivo e repasses diretos somaram apenas R$ 78,4 milhões no mesmo intervalo.
Os dados oficiais foram compilados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por meio do sistema Divulgacand em apuração divulgada nesta quarta-feira, 26. Os números revelam que os próprios postulantes aos cargos eletivos investiram do próprio bolso cerca de R$ 42,7 milhões. A concentração financeira nas legendas é reflexo da estrutura do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, cujo teto global previsto é de R$ 5 bilhões. Até o momento, as siglas repassaram R$ 591 milhões aos seus quadros, o que representa apenas 12% da dotação total reservada para o pleito deste ano.
Na divisão das fatias partidárias, o Partido Liberal (PL) desponta com o maior montante absoluto, tendo assegurado R$ 880 milhões do fundo público, dos quais já distribuiu 30% aos concorrentes. Em seguida, o Partido dos Trabalhadores (PT) conta com R$ 615 milhões disponíveis, tendo liberado 15% dessa quantia. Já em termos proporcionais de liberação rápida, o PCdoB lidera o ritmo de distribuição ao descentralizar metade dos seus R$ 60,5 milhões, seguido pelo partido Novo, que já repassou 44% de sua cota de R$ 37 milhões.
A disputa pelas doações privadas também começa a desenhar seus líderes nos registros da Justiça Eleitoral. O empresário Alexandre Grendene figura como o principal doador pessoa física até agora, tendo aportado R$ 3 milhões, enquanto Pedro Grendene contribuiu com R$ 700 mil. Entre os parlamentares e candidatos que mais atraíram recursos individuais destacam-se Flávio Roscoe (PL-MG), com R$ 3,3 milhões arrecadados, Luciano Zucco (PL-RS), com R$ 2,5 milhões, e Mendonça Filho (PL-PE), que registrou R$ 1,6 milhão. Vale lembrar que, nas eleições gerais de 2022, o volume total de doações de cidadãos superou a marca de R$ 1,1 bilhão, em valores corrigidos pela inflação.
No topo da disputa presidencial, as arrecadações gerais espelham a polarização da corrida pelo Palácio do Planalto: Flávio Bolsonaro lidera com R$ 42 milhões recebidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva soma R$ 35,2 milhões. Em palanques estaduais e proporcionais expressivos do PL, Sergio Moro arrecadou R$ 11 milhões na disputa pelo Governo do Paraná, Jorginho Mello computou R$ 5,8 milhões em sua tentativa de reeleição em Santa Catarina, e Domingos Sávio totalizou R$ 5 milhões na corrida ao Senado por Minas Gerais. No campo dos gastos, as despesas já contratadas somam R$ 96,5 milhões — capitaneadas pela campanha de Flávio Bolsonaro, com R$ 8,5 milhões voltados principalmente a serviços jurídicos e táxi aéreo. No panorama geral de despesas, materiais impressos consomem 20% do orçamento declarado, e serviços advocatícios representam 12,7%.
O que esta em jogo: A brutal predominância de 85% dos fundos controlados por cúpulas partidárias ressalta como o modelo de financiamento eleitoral brasileiro permanece estatizado e dependente do pagador de impostos. Essa dependência confere enorme poder discricionário aos dirigentes partidários para definir quem terá viabilidade eleitoral, enquanto reduz o incentivo para que os candidatos busquem respaldo orgânico e voluntário junto aos cidadãos e à sociedade civil organizada.
Com informacoes de revistaoeste.com.